Há uma velha doença no debate público brasileiro: a superficialidade. E ela aparece novamente na polêmica envolvendo o contrato de mais de R$ 11 milhões firmado pela Prefeitura de Ilhéus com a empresa Plena para a alimentação escolar pelos próximos cinco meses. Para uns, trata-se de um absurdo. Para outros, de uma revolução administrativa.
 
Como quase sempre acontece, talvez a verdade esteja justamente onde poucos resolveram olhar: nos detalhes. A oposição faz o papel que lhe cabe e questiona o valor do contrato. O governo, por sua vez, tenta defender a iniciativa como um salto de qualidade. Nós, aqui, preferimos outra tarefa: aprofundar o debate. Porque, convenha-se, não dá mais para fingir normalidade diante de um modelo de alimentação escolar que há décadas convive com improviso, desperdício, falta de controle e cozinhas funcionando quase no limite da gambiarra institucional.
 
O que está sendo contratado não é apenas “comida”. E talvez esteja aí o ponto que grande parte da discussão pública ignorou. Segundo foi apresentado na longa reunião realizada no último dia 13 no Opaba Praia Hotel, com gestores escolares, representantes sindicais, CONSEA, do Conselho de Alimentação Escolar e empresa contratada entre outros, a proposta envolve assumir praticamente toda a cadeia operacional da alimentação escolar: fornecimento de alimentos, utensílios, EPIs, equipamentos, gás, higienização, armazenamento, controle técnico e monitoramento nutricional permanente.

Mais do que isso: a empresa terá obrigação de seguir normas sanitárias equivalentes às exigidas para restaurantes, inclusive mantendo amostras da produção por até 72 horas. Haverá contratação de nutricionistas para acompanhamento semanal das escolas, além da promessa de padronização da qualidade, redução de desperdício e ampliação do controle sanitário. E aqui surge a pergunta que ninguém quer enfrentar honestamente: o modelo antigo estava funcionando? Porque relatos vindos das próprias escolas expõem uma realidade constrangedora. Quando chegava proteína, faltava tempero. Quando havia alimento, faltava capacidade de armazenamento e produção como freezer, geladeira e outros. 

Muitas vezes, diretores viravam administradores improvisados de cozinha industrial sem estrutura mínima para isso. Há ainda outro elemento pouco discutido. Trabalhadores vinculados à operação poderão ter acesso a férias, 13º, assistência à saúde e qualificação, direitos frequentemente negligenciados na precariedade silenciosa que cerca os trabalhadores contratados. Claro: apoiar a tentativa de mudança não significa assinar cheque em branco. Aliás, o próprio representante Conselho de Alimentação Escolar - CAE, Lu do SINSEPI, verbalizou o ceticismo que muita gente, inclusive gestores compartilham: diante de tudo o que foi prometido, o valor do contrato parece até baixo. E essa observação, longe de desmerecer o projeto, aumenta a necessidade de fiscalização rigorosa. 

O governo pode estar diante de uma iniciativa capaz de modernizar um sistema historicamente falido. Ou diante de uma experiência que corre risco de colapsar sob o peso das próprias promessas. Ainda não sabemos. O que sabemos é que continuar fazendo exatamente a mesma coisa, do mesmo jeito, esperando resultados diferentes, nunca foi gestão pública. Foi acomodação. 

Como imprensa livre, não atacaremos por atacar, nem defenderemos por conveniência. Acompanharemos cada etapa, cobraremos transparência, fiscalizaremos execução, ouviremos escolas, servidores, pais e alunos. E, se houver irregularidades, improvisos ou fracasso, apontaremos com a mesma firmeza com que hoje reconhecemos a coragem de, ao menos, tentar romper um modelo que há muito tempo já dava sinais de esgotamento. 

O debate sobre a alimentação escolar em Ilhéus talvez revele algo maior do que um simples contrato administrativo. Ele escancara o choque entre duas visões de gestão pública: a que se acomoda ao fracasso crônico travestido de normalidade e a que, acertando ou errando, ao menos ousa romper a inércia. O tempo dirá se a proposta sobreviverá à realidade das escolas, da burocracia e da política. 

Mas há uma verdade incontornável: nenhuma cidade transforma sua educação tratando merenda escolar como detalhe secundário. Porque, no fim das contas, não se discute apenas comida. Discute-se dignidade, saúde, permanência escolar e o futuro de milhares de crianças que dependem da escola até para aquilo que deveria ser básico. E se houver coragem para mudar, haverá também obrigação de fiscalizar. É exatamente aí que a imprensa séria deve permanecer: nem ajoelhada diante do poder, nem aprisionada ao cinismo automático da crítica fácil.