Ao tentar negar direitos básicos à categoria que sustenta a educação pública, o governo Valderico transformou uma negociação salarial em símbolo de desgaste político e de isolamento institucional.

Há certos movimentos da política que dispensam explicações longas. Bastam os sinais. Quando o então pré-candidato Valderico Júnior surgiu abraçado ao ex-prefeito Jabes Ribeiro durante o período pré-eleitoral de 2024, parte significativa dos servidores públicos de Ilhéus não enxergou ali apenas uma aliança circunstancial. Viu um aviso. E a memória, especialmente na política, costuma ser mais poderosa do que qualquer slogan de campanha.

Os professores sabiam exatamente o que aquele gesto evocava: 2013. O ano da greve de cem dias. O ano em que milhares de crianças ficaram fora das salas de aula enquanto servidores enfrentavam um governo marcado pela incapacidade de dialogar e pela obsessão em tratar direitos como concessões pessoais do gestor de plantão. A história terminou na Justiça, com derrotas para o município, recomposições salariais determinadas judicialmente e um passivo milionário que não será pago pelos responsáveis políticos da época, mas pelo povo de Ilhéus.

Pois bem. O roteiro parecia querer se repetir, ainda que com personagens diferentes e métodos atualizados. No primeiro ano do atual governo, a categoria flexibilizou pontos da negociação, apostando na construção de diálogo institucional. Não recebeu reconhecimento; recebeu endurecimento. Neste ano, quando professores e servidores decidiram não aceitar retirada de direitos, ouviram inicialmente do prefeito que não haveria reajuste. Depois, que os efetivos receberiam, mas os contratados, submetidos a cargas exaustivas e vínculos precários, ficariam de fora. Em seguida, veio a resistência ao pagamento da tabela dos servidores.

A cada recuo do governo, crescia a mobilização nas ruas e nas redes sociais. E aqui emerge outro dado revelador: grande parte dos blogs e programas de rádio locais preferiu atuar como departamento informal de comunicação da prefeitura, reproduzindo versões convenientes ao poder em vez de exercer jornalismo. Ainda assim, a categoria venceu.

Venceu porque permaneceu unida. Venceu porque compreendeu que negociação sem pressão costuma virar submissão. Venceu porque transformou desgaste em mobilização política. O governo acabou aceitando pagar a tabela, o retroativo de abril e assumindo o compromisso de efetuar os pagamentos futuros já em fevereiro de 2027.

Mas sobra uma pergunta inevitável. Quem conduzia, de fato, essa política de enfrentamento contra professores e servidores? Era apenas inexperiência administrativa? Ou havia nos bastidores a velha lógica política que historicamente enxergou o funcionalismo não como parceiro do serviço público, mas como obstáculo a ser contido?

Quando uma gestão chega ao ponto de negar férias e 13º a contratados, algo que até governos duramente criticados evitaram fazer, o problema deixa de ser apenas fiscal. Passa a ser político, institucional e moral.

No fim, os professores não conquistaram apenas reajustes. Impuseram uma derrota simbólica a uma forma antiga de governar Ilhéus: aquela que acredita que servidor público deve aceitar silêncio no lugar de respeito.