Assim como Ilhéus, acordei esta manhã com uma notícia que aperta o peito e convida à reflexão. Alcides Kruschewsky se foi. Partiu na manhã desta segunda-feira, primeiro de junho, em Salvador, aos sessenta e seis anos, vítima de um câncer nas vias biliares que havia descoberto há pouco mais de quarenta dias, tempo cruel demais para uma despedida, mas que não diminui em nada a grandeza de uma vida dedicada ao serviço público e à cidade que amava.

A notícia causou comoção imediata entre amigos, familiares e todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com Alcides na vida pública e política de Ilhéus. E não poderia ser diferente. Ele foi administrador de Olivença, exerceu dois mandatos como vereador, ocupou cargos de primeiro escalão na Secretaria Municipal de Governo sob a gestão do ex-prefeito Newton Lima, comandou a Secretaria de Turismo no último mandato de Jabes Ribeiro e ainda esteve à frente da Secretaria de Comunicação Social durante parte do primeiro mandato do ex-prefeito Marão. Uma trajetória de décadas construída tijolo a tijolo, com a consistência de quem sabe que o serviço público não é trampolim, mas vocação.

Permita-me, leitor, um desvio necessário do lugar impessoal que o editorial normalmente ocupa. Conheço Alcides Kruschewsky de um capítulo particular da minha própria história. Em 2012, após ter meu nome amplamente divulgado em toda a Bahia, e especialmente em Ilhéus, por conta das circunstâncias da greve da Polícia Militar, recebi o convite de Alcides, então presidente do PSB em Ilhéus, e de outras lideranças do partido, para me candidatar a vereador. Fiz a campanha, obtive mais de mil votos e fiquei a menos de cem votos de me eleger. Ficaram à minha frente Cosme Araújo, Aldemir Almeida e Raimundo do Basílio, os três eleitos, e Dr. Rodrigues, que assumiu como primeiro suplente.

Naquele período, aprendi muito com Alcides. Aprendi sobre política, sobre paciência, sobre a diferença entre o barulho das campanhas e o silêncio necessário do exercício de um eventual mandato. E Alcides jamais me deixou esquecer aquela derrota com a leveza de quem sabe que o povo, às vezes, erra, e que as consequências de um erro na urna podem durar quatro anos. Com aquela voz  peculiar e o brilho nos olhos de quem ainda acredita nas instituições, ele costumava parafrasear Ulisses Guimarães: se o povo achava aquela legislatura ruim, que aguardasse a próxima. Me disse que eu teria qualificado aquela Câmara pela juventude, pela vitalidade e pela força com que defendia minhas ideias.

Eram palavras de conforto, é claro. Mas também eram palavras de quem acreditava genuinamente que a política é um espaço que se renova, ou deveria se renovar, com sangue novo, com ideias novas, com gente disposta a brigar por algo maior que um cargo. Esse era Alcides: um veterano que não temia o novo, um político de escola que não virou as costas para quem chegava no meio político. 

Em julho de 2025, Alcides participou do Pod Gusmão número oito, ao lado do advogado Joabes Ribeiro, para avaliar os primeiros seis meses do governo Valderico Júnior. Estava, como sempre, antenado, crítico e propositivo. Ninguém imaginava que seria uma das suas últimas aparições públicas.

Ilhéus perde hoje um grande quadro. Perde um homem que entendeu que a política, quando bem praticada, é o mais nobre dos ofícios coletivos. Perde uma referência de uma geração que não tinha redes sociais para fazer barulho, tinha discurso, tinha argumento, tinha compromisso. Desejamos à família de Alcides Kruschewsky toda a força e o acolhimento que este momento exige. E que Ilhéus saiba guardar, com o devido respeito, a memória de quem tanto a serviu.

Vai com Deus, Alcides. Obrigado por tudo.